MACHOS, PERO NO MUCHO

Os g0ys são heterossexuais, mas ficam com outros homens

Os g0ys são heterossexuais, mas ficam com outros homens

O filme “Brokeback Mountain”, que narra o amor e envolvimento entre dois homens, seria ótimo, não fosse o fato de haver sexo entre eles. A opinião é dos g0ys (com um “zero” no lugar do “a”), um grupo que nasceu nos Estados Unidos e já se espalha pelo mundo. De acordo com a ideologia deles, homens podem manter relações com pessoas do mesmo sexo desde que não haja penetração. Se, para a maioria das pessoas, um homem que se relaciona com outro é gay, para os g0ys isso não é uma regra. Os integrantes do grupo, que costumam ficar com outros caras, não se consideram homossexuais porque não praticam sexo anal.

g0ysbrokeback-mountainEles são homens, fazem sexo apenas com mulheres, não se identificam com os valores e comportamentos dos gays, mas se intitulam com uma palavra parecida: “g0y”. São heterossexuais; no entanto, são liberais nas relações com outros homens. Entre os amigos g0ys, podem rolar beijos, amassos, sexo oral e carícias íntimas, mas não há penetração anal. “As relações g0ys são mais homoafetivas”, explicou um dos líderes do movimento no Brasil, Master Fratman. É uma amizade masculina sem preconceitos, de acordo com o g0y Joseph Campestri. Segundo ele, são homens que se permitem demonstrar carinho e sentimentos por outros, e estão fora das normas homossexuais e heterossexuais solidificadas na sociedade.

O movimento surgiu no início dos anos 2000, nas fraternidades masculinas universitárias, entre skatistas e surfistas, segundo informações de líderes. No Brasil, a filosofia g0y começou a ser divulgada por blogs dez anos depois, de acordo com Campestri, um dos pioneiros a abordar o assunto no País, e logo se espalhou. Em novembro, uma das principais comunidades de g0y no Facebook reunia apenas 43 membros. Em abril deste ano, o número passou para quase 700. O site ‘heterogoy’ existe há menos de dois meses e tem mais de 1 mil acessos diários. Brasília, Salvador e Rio de Janeiro são os locais em que o movimento tem mais força, segundo Fratman. “Aproximadamente 70% dos g0ys são heterossexuais e se relacionam com mulheres, 30% são exclusivamente homoafetivos”, afirmou Cláudio La Paz.

Defensor da bandeira g0y, La Paz comparou os relacionamentos ao caso vivido pelos personagens Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis del Mar (Heath Ledger) no filme “O Segredo de Brokeback Mountain”, de 2005. “Nós sentimos atração e gostamos do semelhante. Não desejamos atos desiguais, a relação gay no nosso entendimento não é igualitária, no momento em que estabelece a figura do ativo e do passivo, cria-se a tentativa de cópia de uma relação de cópula heterossexual”, explicou La Paz. Entre os g0ys acontece tudo de igual para igual, na maioria das vezes entre amigos íntimos. Pode ainda existir relação mais séria, como um namoro, chamado pelos g0ys de “bromance”, ou “romance entre brothers”, como disse Fratman.

g0ysBromancesOs relacionamentos acontecem, geralmente, entre “colegas de faculdade, de trabalho e contatos feitos pela internet”, afirmou Milton Bahia. O bromance, segundo ele, não é tão comum quanto o envolvimento duradouro com mulheres. “Gosto de me relacionar com mulheres e ter um amigo íntimo. A maioria dos g0ys que eu conheço tem namorada”, disse Bahia. De acordo com Campestri, a maior parte deles deseja encontrar uma mulher, ter relações sexuais com ela, casar, ter filhos e constituir uma família. “Até mesmo porque a filosofia partiu dos heterossexuais não tradicionais”, reforçou o g0y.

O vídeo “g0ys rugby g0ys”, publicado no Youtube e com mais de 40 mil visualizações, mostra exatamente o tipo de relacionamento descrito pelos entrevistados. Um grupo de amigos faz jogos, ingere bebidas alcoólicas e em meio às brincadeiras, se beijam, se abraçam, trocam carícias íntimas e se divertem. O vídeo ainda exibe a mesma turma flertando com mulheres. “Minha atração por mulheres é muito superior à sentida pelos homens”, afirmou La Paz. Casado há três anos, ele assumiu ser g0y há um ano e meio e acredita que o casamento só melhorou. “Hoje nós passeamos juntos, as discussões diminuíram e o sexo também melhorou. Eu era muito afoito, querendo provar ser macho, hoje há mais carinho”, relatou. Os relacionamentos com outros g0ys só acontecem em viagens, segundo La Paz.

Divorciado, Bahia contou que gosta de preliminares com homens e mulheres, mas não pratica sexo anal com qualquer um dos gêneros. Na adolescência, ele sentia “algo estranho” ao ver homens de cueca e até chegou a pensar que era gay. Namorou mulheres e aos 21 anos conheceu um homem pela internet que compartilhava dos mesmos desejos afetivos. Já Fratman tem outro perfil: é solteiro, e só se relaciona com mulheres quando sente afinidade, “pela atitude ou personalidade”. Apesar do interesse pelos dois gêneros, ele não se considera bissexual: “o bi transa com homens e mulheres, um g0y pode ter relacionamento exclusivamente afetivo e se tiver desejo faz sexo só com mulheres. Não é um oba oba”, afirmou. Os valores heterossexuais se mantêm, mas com espaço para a homoafetividade, segundo ele.

G0y é um termo só para homens
Os g0ys são homens e a denominação não vale para mulheres que mantenham relações afetivas entre si, de acordo com Campestri. Elas já fazem isso naturalmente e “não foram programadas para serem distantes umas das outras. Têm facilidade em serem atenciosas e afetivas com pessoas do mesmo gênero”, afirmou. Assim como as mulheres não perdem a feminilidade ao trocarem carinhos, os g0ys também não são “menos homens” por deixarem o lado afetivo mais aflorado, complementou.

g0ybandeiraPreconceito gay
Parte dos g0ys já foi bissexual no passado, portanto, segundo La Paz, é comum acontecerem recaídas e interação com o mundo gay, principalmente os homens mais velhos. Apesar da proximidade, é dos homossexuais masculinos que os g0ys sofrem mais preconceito, de acordo com os entrevistados. “Nos recriminam, nos acham um bando de enrustidos fazendo moda”, detalhou Bahia. A sociedade em geral, na opinião de Campestri, foi tão programada que vê de forma negativa todas as demonstrações de afeto entre homens. “Os g0ys começaram a ser vistos em âmbito nacional pelo prisma do equívoco, da suspeita e da dúvida”, afirmou.

Em relação às mulheres, Fratman acredita em compreensão conforme entendem o que são os g0ys. “Passamos a ser um bom partido, afinal somos desejáveis, masculinos, fiéis e, no geral, bonitinhos”, continuou. O g0y ainda afirmou que homens heterossexuais mantêm amizade com g0ys e até as mulheres deles. Depois de torcerem o nariz, se aproximam “à medida que começam a perceber a diferença entre sexo e afeto”.

Alguns ativistas, como o antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, acreditam que a criação de novas categorias de gênero acaba tirando o foco da luta pelos direitos dos homossexuais. “Toda diversidade sexual deve ser respeitada. Porém, num país onde um gay ou travesti é assassinado a cada 21 horas, inventar “trocentas” novas identidades de gênero desestrutura o movimento afirmativo dos homossexuais, que ainda estão lutando pela sobrevivência – afirma Mott. – Acho interessante a exploração da sexualidade, mas prefiro estimular que os g0ys se afirmem como gays”. Para o antropólogo, acreditar que só é gay quem pratica sexo anal é um equívoco. “A homossexualidade não é sinônimo de cópula anal. Alternativas como sexo oral ou masturbação recíproca fazem parte da prática homoerótica desde a Grécia Antiga”, explica Mott, que não acredita na perpetuidade dos g0ys. “É um modismo, como as lesbian chics ou os HSH (homens que dizem fazer sexo com outros homens sem se identificar como homossexuais), sendo que essas microidentidades têm um componente homofóbico, pois preconceituosamente identificam o gay como um estereótipo”.

Coordenador especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio, Carlos Tufvesson concorda com Mott e se mostra surpreso com a necessidade de “catalogar” os desejos sexuais. “Me espanta esse excesso de rótulos para a sexualidade. Isso, no fundo, tem raiz em um preconceito que liga o gay à feminilidade. Ou a penetração a algo feminino. Para mim, basta que sejam felizes e que curtam suas fantasias, pois quem não dá vazão aos desejos pode se tornar mais um homofóbico que sai por aí matando gays”.

Ainda segundo o site brasileiro, os g0ys têm até uma bandeira, toda em tons de azul, já que se trata de uma cor considerada masculina.

Fonte: Terra e Extra

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