BRUNO TORRES – AUTOR DE SI MESMO

IMG_2425 (1)Quem assistiu o filme “Somos Tão Jovens” no cinema e é de Brasília logo reconheceu e identificou vários cenários, ambientes, referências e rostos da capital federal. Entre os atores que fizeram aparição, um em especial chama atenção. Bruno Torres, intérprete do músico Fê Lemos (ex-Aborto Elétrico e atual Capital inicial), é velho conhecido do espectador brasiliense. O rosto leve e jovial que não revela os 32 anos de vida pôde ser visto em várias publicidades, peças de teatro e filmes realizados na cidade. Dois deles, inclusive, com assinatura também no roteiro e na direção. “O último raio de sol” e “A noite por testemunha”, lançados em festivais de cinema de Brasília, premiados na capital, no Brasil e em outros países, mostra as várias facetas de um artista completo, que atua, escreve roteiros, dirige cenas e ajuda na composição da trilha sonora. Esse é Bruno, fruto de uma geração nascida e criada sob o clima de ócio criativo que predomina no epicentro do Planalto Central e agora desponta para o sucesso. “Brasília é um berço de criatividade por suas características ímpares, que não tem em outros lugares, como espaço, vegetação, clima, geometria e toda essa atmosfera mística que traz um intimismo eficaz para quem cria”, argumenta ele, que encontra muitas semelhanças entre a geração coca-cola e a que pertence. “Para nós, a inércia também foi um impulso criativo e alternativo. Isso, na verdade, é uma característica marcante da juventude brasiliense: a necessidade urgente de fazer algo”.

Formado pelo grupo Cia dos Sonhos, do uruguaio Hugo Rodas, Bruno é desses artistas de nascimento, por convicção, que nunca trabalhou em nada que não fosse dramaturgia. O cara começou logo cedo com música, descobriu-se ator em anúncios publicitários e, talvez influenciado pelo pai, o cineasta Geraldo Moraes, descobriu aos 16 anos que queria fazer cinema, escrevendo e dirigindo seus próprios filmes. A única ressalva que faz é não dirigir roteiro de ninguém nem escrever roteiro para ser dirigido por outro cineasta. “Não sou um profissional de indústria, meu trabalho é muito autoral”, argumenta. Em seu currículo, mais de 30 filmes em funções diferentes, o que lhe permitiu adquirir bagagem para se especializar na sua grande paixão. Mas, embora o cinema seja o seu combustível, enxerga no teatro e na televisão oportunidades de exercer seu ofício com o mesmo tesão. “Trabalhar com dualidade para que, se dá pra unificar, para que as coisas se complementem?”

Em tempos de celebridades instantâneas, Bruno fez o caminho inverso. Por duas vezes consecutivas, abriu mão de um contrato com a maior emissora de tevê para realizar projetos profissionais que lhe dão prazer. Em 2003, após uma participação pequena nas novelas “Mulheres Apaixonadas” e “Celebridade”, dois grandes sucessos do horário nobre da Rede Globo, foi convidado a entrar para o elenco fixo da emissora. Não que não desejasse construir uma carreira como ator de novelas, mas o momento pedia dedicação ao teatro, já que a peça que protagonizava faria turnê internacional. Era o espetáculo “Não Ficamos Muito Tempo Juntos”, com textos de Samuel Beckett e direção de Adriano e Fernando Guimarães. Ao mesmo tempo, o projeto para seu primeiro curta como diretor tinha sido selecionado para edital de realização. “Ser ator é uma profissão de vaidade. Para se estabilizar na carreira é preciso muitos anos, não é uma coisa instantânea. Optei por seguir o caminho comercialmente inverso e hoje estou mais preparado para conciliar televisão, teatro e cinema. Eu senti necessidade de criar base sólida nos dois compromissos em vez de abraçar tudo aos 23 anos de idade”, conta, orgulhoso por ter podido experimentar a sensação de ser consagrado no exterior. Na mesma viagem internacional, subiu no palco para encenar a peça e para receber um prêmio pelo curta “O último por do sol”., de 2004. Bruno não deu foco ao status financeiro; optou pelo autoral e não se arrepende. “Considero vital o caminho que escolhi”, diz.

O flerte com a televisão, iniciado em 2003 quando fez a concorrida oficina de atores da Globo após ser descoberto por olheiros em Brasília, foi retomado em 2010, quando acertou sua participação na novela “Insensato Coração”, com personagem que tinha nome, Valdir, e fazia parte da engrenagem que movimentava a trama central. Após este trabalho, veio uma nova oferta de assinatura de contrato, e, mais uma vez, teve que recusar. Para fazer cinema. “O convite veio no momento em que se iniciavam as filmagens de ‘Somos tão jovens’, um projeto que eu quis fazer desde o momento em que tive conhecimento de sua existência. Não deu para ser diferente”, ele conta, sem remorso por ter optado por interpretar Fê Lemos no longa que retrata a juventude de Renato Russo. A oportunidade, segundo ele, é uma dessas intervenções do cosmos que é tão marcante em Brasília. Bruno conhecia o diretor do projeto, Antônio Carlos Fontoura, e, na primeira chance, foi direto ao ponto: ofereceu-se para o papel aproveitando-se do fato de ser ator e músico. Assim como o integrante do Capital Inicial, é baterista. “O filme tinha que passar verdade e o Fontoura quis que os atores que fariam os meninos da banda fossem músicos. Era pra ser eu. Devo tudo que acontece na minha vida às questões sensoriais de Brasília”

Nascido e criado na capital federal, Bruno não consegue se desvincular da cidade. Chegou a passou temporadas de no máximo um ano e meio no eixo Rio-São Paulo por questões profissionais, mas é para cá que sempre volta. “Minha personalidade é brasiliense, não nasci aqui por acaso. Se não tivesse nascido em Brasília, viria para cá”, declara o ator, que alega ter forte comprometimento com a cidade. Não à toa, os filmes que dirigiu retratam o carma da sua geração – é dele a leitura cinematográfica do fatídico episódio do índio queimado na parada de ônibus por playboys da capital, no curta  “A noite por testemunha”. Bruno tem fortes crenças no misticismo que ronda Brasília. “O Centro-Oeste é místico. Eu gosto desse nosso entorno e sempre recorro ao mato para me encontrar. Só assim eu consigo voltar para a serenidade”, conta, demonstrando empolgação no tom de voz ao falar de sua crença. O roteiro do novo filme, “A espera de Liz”, seu primeiro longa, programado para filmar ano que vem com apoio do Ministério da Cultura, demorou cinco anos para ser escrito e, segundo Bruno, o texto só fluía quando estava em Brasília. “A cidade tem o poder de me conduzir para a introspecção e aguçar minha criatividade. É incrível!”, ressalta.

A relação com o misticismo é uma característica que não passa desapercebida em uma conversa com Bruno Torres. Espiritualista convicto, acredita que todo ator é um médium. “O fluxo de energia que a gente recebe em cena só o ator sabe o que é. A gente trabalha mil possibilidades imaginárias que devem ser respeitadas sem limite, mas que atrai uma série de densidades que vem no personagem. A energia da cena toma conta do ator e a capacidade de canalizar isso eu conquistei por meio do mentalismo”, argumenta o artista. Para dar vida ao baterista Fê Lemos no longa sobre Renato Russo, Bruno buscou uma ligação mais espiritual para compor o personagem, já que a semelhança física não foi o ponto mais forte. “Era o primeiro papel real da minha carreira e um cara que ainda vive. Eu tive que ouvir as memórias que ele próprio, o Fê, tinha daquele garoto que ele foi um dia e extrair de suas palavras e do que ouvi de outros depoimentos para compor o meu Fê”, explica. Durante o processo de composição, Bruno não conseguiu encontrar o músico pessoalmente e somente conversou por telefone com ele. Das conversas com o pai da dupla Fê e Flávio Lemos, descobriu que deveria carregar na impulsividade e ser um pouco implicante. “No filme, havia leveza das atrizes que fizeram as meninas do grupo e eu optei por buscar uma energia mais sombria para fazer o contraponto. Porque, em determinado momento, o Fê era um antagonista”, revela.

 Bruno é um cara que não tem muita afinidade com a vida urbana. Prefere a natureza, mas, não rejeita a tecnologia, que, segundo ele, é o que materializa os filmes e organiza suas ideias. Vive 24 horas de seu dia em processo criativo. Agora mesmo divide os compromissos de lançamento do filme de Fontoura com a produção de seu longa por meio das suas empresas, a Aquarela Produções Culturais, a Lupurana Filmes e a Sumauma Cinema e Ativismo Ambiental – esta última criada para colocar em prática um projeto pessoal que visa destinar 4% dos recursos levantados para seus filmes a ongs de desenvolvimento sustentável. “Fazer cinema é uma coisa que agride muito a natureza. Cabe a nós devolver um pouco do que arrecadamos a ela”, admite. E, para quem gosta do trabalho do ator no cinema, pode anotar aí no caderninho: Bruno Torres em breve estará na telinha novamente. “Não posso revelar muita coisa ainda, mas acho que o meu flerte com a televisão vai finalmente dar namoro”, promete, em tom de mistério.

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