RENATO RUSSO – O FILHO DE BRASÍLIA

Somos-Tao-Jovens-capa1“Nós não temos futuro”. Com esse brado retumbante, o jovem Renato Manfrendini Júnior rebateu a afirmação feita por um professor em seus primeiros dias de aula no curso de Comunicação Social do Ceub, em Brasília. O mestre dizia que eles, os novos alunos, estavam com o futuro garantido e eram a elite do país. Na época, o jovem franzino, com “correntes penduradas na calça e alfinetes na camisa”, conforme descreve o jornalista Carlos Marcelo na biografia “Renato Russo, o filho da revolução” (Ed. Agir, 2009, 416 páginas), não concordava nem que fazia parte da elite do país, nem que teria futuro. Talvez ele tivesse alguma ideia do que os próximos anos lhe reservariam. Menos de vinte anos depois, Renato faleceria precocemente, vítima de complicações da Aids, aos 36 anos. O que ele não sabia era que seu professor estava correto: seu futuro já estava garantido.

 

O idealismo não cabia nos eixos de Brasília – a cidade que despertava um Tédio, assim mesmo, com um T bem grande – , então Renato colocou as asas para voar nas quadras da novíssima capital federal, referência presente nas letras que traziam o Parque da Cidade, o Cine Brasília, o Conic, Sobradinho, Lago Norte, o Congresso Nacional, a Universidade de Brasília (UnB). Em seu apartamento na 303 Sul, criou a imaginária banda 42º Street Band, da qual era o vocalista Eric Russel; liderou a Aborto Elétrico; vestiu-se do figurino do Trovador Solitário; e concebeu, por fim, a Legião Urbana – grupo que experimentou talentos e se consolidou no trio que ficou eternizado na memória dos brasileiros – composto ainda por Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá.

Em 2013, mais de três décadas após o embate de ideias narrado acima e quase vinte anos de sua morte, Renato Russo é aclamado como um ídolo, um mito, uma lenda em todo o Brasil. Sua obra fala por si só, caminha sozinha. Desde que despontou para a fama, foram nove discos de canções inéditas e autorais à frente da Legião Urbana, três álbuns em carreira solo  – incluindo um em inglês e outro em italiano – e diversas coletâneas póstumas. Prova disso são as homenagens que vem sido aclamadas em sua memória, com as produções dos filmes “Somos Tão Jovens” e “Faroeste Caboclo” (leia reportagens a partir da página 54) e o show apoteótico que será realizado no Estádio Nacional Mané Garrincha no segundo semestre, com direito a holograma do artista e acompanhamento da orquestra sinfónica do Teatro Nacional.  Como palco principal das homenagens, a mesma cidade que o rejeitou no polêmico show realizado em 1988, que resultou na pichação, no muro do posto de gasolina em frente ao bloco onde viviam seus pais, da sentença “Legião, não voltem mais”. Com Renato, ela nunca voltou.

Fora de Brasília, a Legião Urbana ganhou o país. O cenário que vemos hoje não passava pela cabeça de Renato nem mesmo quando tinha suas ilusões. Até porque ele não gostava de ser ídolo quando, naquela transição da década de 80 para 90, passou a ser admirado por um bando de legionários que tinha em sua obra uma religião. “As pessoas bebem minhas palavras como água. E escrevo justamente porque não sei. Não quero que minha opinião sobre temas controvertidos, drogas, por exemplo, influencie outra pessoa”, reclamava ele, que, por outro lado, adorava conceder entrevistas e dar aulas – ofício que cogitou retornar já no fim de sua vida. Querendo ou não influenciar, Renato o fez. Ainda hoje, ele e a Legião Urbana continuam a inspirar músicos de todo o país. Gerações após gerações cresceram ouvindo seus clássicos e fazem questão de mantê-los vivos dentro de seus repertórios. Exemplo disso são os músicos gaúchos da Reação em Cadeia, os cariocas Maria Gadú e Jay Vaquer, além dos brasilienses da Etno e Nalata e dos paulistas do Hateen. Em comum, essas bandas tem a admiração pelo músico e sua obra. Segundo o cantor Jay Vaquer, que em 2011 gravou o programa global Som Brasil, que homenageou a Legião Urbana, Renato Russo é uma importante influência e estabeleceu um nível, apontou caminhos e deixou boas melodias e letras. “Meu primeiro contato foi nos anos 80 mesmo, arrebatador logo de cara”, conclui Jay, em referência às muitas homenagens prestadas ao músico no último ano.

Na opinião de Rodrigo Koala, vocalista da Hateen, todas as homenagens feitas a Legião e ao Renato Russo são bem vindas e merecem ser perpetuadas. “As pessoas que não conhecem precisam conhecer sua obra e, as que já conhecem, podem curtir as músicas que marcaram suas vidas. Uma música como ´Vento no Litoral´, pra mim é uma obra de arte, deveria ser gravada e mandada para o espaço como prova da genialidade artística do ser humano”, brinca o músico. A música também é a preferida da mãe de Renato, Carminha Manfredini.

Para o gaúcho Daniel Jeffman, guitarrista da banda Reação em Cadeia, a Legião Urbana, incontestavelmente é a banda mais inspiradora e influenciadora do rock brasileiro. “Todas as homenagens que pudermos fazer para agradecer a existência dessa banda histórica são merecidas. Eles têm todo o meu respeito”, destaca. Na visão do vocalista da Reação em Cadeia, Jonathan Corrêa, o músico sempre foi uma verdadeira fábrica de hits e de reflexões. “A forma como o Renato expunha suas ideias e sentimentos através de sua voz e de suas letras tão bem construídas e rebuscadas, mas feitas ‘para todos’, fez com que eu me tornasse um apaixonado pela obra da Legião Urbana”, declara. A banda Reação em Cadeia regravou a música “Quase Sem Querer”, a exemplo de Maria Gadú, que também deixou registrado sua versão do clássico do CD “Dois”. “O Renato é minha fonte de inspiração. Sempre canto Legião em meus shows e gosto muito, por isso que fiz questão de gravar a música. O Renato é meu referencial, como imagino que seja referencial para todos que escutam e apreciam a música brasileira”, defende Gadú que cantou a música “Índios” durante seu show no aniversário de 53 anos de Brasília, em abril. Para o brasiliense Juliano Corrêa, do Nalata, o legado deixado por Renato dá mais força para que as bandas locais busquem um espaço no cenário musical brasileiro. “O Renato me inspira muito em observar e isso é uma das coisas mais importantes para um artista”, comenta o guitarrista.

O deus sempre foi tímido, o que gerou em seus amigos na adolescência a indagação do tipo “o que ele poderá ser quando crescer?”. Logo, entretanto, viram que, quando ele se sentia à vontade, deixava o lado artista fluir. Dona Carminha, conta que o filho sempre foi um menino inteligentíssimo,  educado e sempre muito respeitador. “Eu criei meu filho para ser um diplomata, na infância dele eu tinha isso muito evidente. Na fase da adolescência é que as coisas mudaram”, comenta. Dessa timidez juvenil, ficou o estilo low profile, calado e reservado na sua intimidade, avesso a exposição excessiva da vida íntima que a mídia de hoje tanto valoriza. Tanto que demorou a se assumir publicamente homossexual. Para a família, não teve ressalvas: saiu do armário por volta dos 18 anos. Dona Carminha conta que o cantor falou de maneira muito natural de sua sexualidade e que em sua casa nunca houve preconceito. “Eu estava na cozinha e o Júnior na sala com uma namoradinha. Então ele disse que queria me contar uma coisa. Na hora eu achei que ele ia dizer que queria se casar, mas para minha surpresa ele estava terminando com a moça, pois disse que gostava de meninos”, narra. Para os fãs e a grande mídia, Renato assumiu sua sexualidade ao compor e gravar o sucesso “Meninos e Meninas”, lançado no álbum “As Quatro Estações”, em 1989. Foi nesse período que o músico foi diagnosticado como soro positivo, contraído de um ex-namorado americano.  Mas o segredo desta vez foi guardado sob sete chaves. “Nem eu sabia que o Renato sofria de AIDS até o dia de sua morte. Para mim também foi uma surpresa”, revela a mãe.

Poucos meses antes de morrer, Renato trouxe à tona um antigo sonho. Ele queria fazer cinema. Tinha inúmeras histórias na cabeça e o projeto de levar para as telonas as histórias de dois grandes sucessos que compôs enquanto Trovador Solitário: “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo”. “Renato era um sonhador, não parecia merecer viver nesse mundo, tinha consciência disso e passava para quem quisesse enxergar em seus trabalhos”, revela Carmem Teresa, a única irmã. O jornalista Arthur Dapieve definiu os trabalhos de Renato, seu amigo, no encarte da coletânea “Mais do Mesmo”, lançada em 1998, dois anos após a morte do artista. Segundo o texto, os trabalhos musicais da banda são referências do estado de espírito do vocalista e compositor. O disco  “Legião Urbana” (1985) era mais politizado, “Dois” (1896) tinha uma pegada mais amorosa e “Que País é Esse 1978/1987” (1987) tinha uma ira guardada na garganta. Já “As quatro Estações” (1989) tinha uma sonoridade mais religiosa e “V” (1992) era mais sombrio. “O Descobrimento do Brasil” (1994) é o mais reflexivo da banda, assim como “A Tempestade” (1996), último CD lançado em vida é o mais deprimido. O único CD da Legião Urbana póstumo, o “Uma Outra Estação”, é considerado como o álbum redentor pelo jornalista. “Nenhum homem vive solto no tempo e no espaço. Muito menos o gênio paira acima das coisas terrenas”, poetizou Dapieve na orelha do livro de Carlos Marcelo alguns anos após de ele mesmo, Arthur, relatar a breve e intensa trajetória depois do herdeiro dos Manfredini na biografia “Renato Russo – O Trovador Solitário” (Ediouro, 2000, 184 páginas).

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