NÃO FOI TEMPO PERDIDO

somos-tao-jovens8Renato Manfredini Júnior nasceu no Rio de Janeiro em 27 de março de 1960, pouco menos de um mês antes da inauguração de Brasília, a cidade para onde se mudaria com a família aos 13 anos de idade e seria berço da incrível existência que perdura após sua morte prematura, aos 36 anos de idade. A obra brilhante é conhecida do grande público, eternizada pelos mais de 20 milhões de álbuns vendidos e versos filosóficos como “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.  Por outro lado, a trajetória do líder da Legião Urbana até se tornar famoso – já retratada em alguns livros – ganha vida agora, com o filme “Somos Tão Jovens”, de Antônio Carlos Fontoura, lançado neste mês de maio em todo o País e já comemorando mais de 2 milhões de espectadores. No papel de Renato está o ator Thiago Mendonça, numa impressionante caracterização do jovem que mudou a forma de fazer música e poesia no Brasil.

 

O filme não é uma cópia fiel da vida de Renato Russo, como explica o diretor, mas uma forma de retratar uma juventude única, um grupo de pessoas que fizeram da capital federal o berço do rock nacional. “Escolhemos contar a história da adolescência do Renato e sua influência na turma da Colina. Foi ali que surgiu todo o movimento punk de Brasília”, comenta Fontoura, ressaltando que o longa é fruto de uma equipe empenhada em “não desapontar Renato”.  “A legião de fãs do artista aumenta ano após ano e atinge pessoas que nunca assistiram ao vivo a uma apresentação do grupo. Então, espero que as pessoas que viram o filme e não viram o Renato ao vivo possam se comover. Que chorem que riam que cantem junto”, aposta Fontoura. Dona Carminha Manfredini aprovou o resultado. “O Fontoura não colocou ali só o meu olhar de mãe. Teve depoimento de muita gente, um trabalho muito intenso de pesquisa”, declarou a mãe.

getFoi na capital brasileira, em meio à ditadura militar, que Renato viveu sua adolescência. Esse período em Brasília foi determinante para a construção do mito conhecido e reverenciado até hoje. A cidade sempre foi uma musa inspiradora pra ele, que mantinha com ela uma tórrida relação de amor e ódio. Pouco tempo depois de ir morar com a família na Asa Sul, Renato descobriu que tinha epifisiólise, uma doença óssea, na região da bacia. No auge dos seus 15 anos, ele teve que passar quase um ano todo na cama, sem poder se mexer e um segundo ano usando cadeira de rodas e muletas.  Curiosamente foi nesse período de reclusão que o jovem optou por se dedicar a música. O primeiro disco que ele ganhou na vida, segundo dona Carminha, ainda na infância, foi da banda britânica Beatles. Mas a paixão gritou foi quando ele se deparou com o punk rock inglês, ritmo que o influenciou fortemente no começo de sua carreira, na extinta banda Aborto Elétrico.  Nesse período Renato passou a sonhar com a vida de rockstar, que iria se concretizar anos mais tarde. “Renato era um adolescente, autodidata, trancado no quarto, levando um som e fazendo músicas de apenas três acordes. Ele já se via como um músico de sucesso”, comenta Thiago Mendonça, que mergulhou na história do mito para vivê-lo nas telonas.

pag-4-somos-tao-jovensEstudioso, Renato terminou o ensino médio aos 17 anos no Colégio Marista e depois optou por estudar jornalismo, fazendo o curso no CEUB. Durante a faculdade, Júnior deu aulas de inglês em uma escola da cidade, mas abandonou o emprego para viver o sonho de ser um roqueiro de sucesso. Devido a sua popularidade, logo conheceu uma turma de punks da capital federal, que como ele, eram músicos e gostavam de se reunir para conversar, beber e ouvir rock. O local escolhido para sediar os encontros foi a Colina, conjunto habitacional de professores e alunos da Universidade de Brasília (UnB). “O local era o mais frequentado por ser mais afastado da região central do Plano Piloto, que sediava o regime militar e por ser o local onde moravam algumas pessoas de nossa galera”, conta o vocalista da Plebe Rude, Phellippe Seabra, amigo de Renato, que chegou a jogar moedas no palco dele em sua fase Trovador Solitário – entre o Aborto e a Legião – por não se agradar do som. A cena é retratada no filme de Fontoura. “Éramos uma turma muito amiga e feliz. Todo mundo era bem aceito e com o Renato não foi diferente. Tenho certeza que foi um dos melhores tempos da vida dele”, afirma.

Na turma da Colina, Renato conheceu os irmãos Felipe e Flávio Lemos e o sul-africano André Pretórios. Juntos, os amigos fundaram a principal banda do punk rock brasiliense, a Aborto Elétrico. O grupo durou quatro anos. A banda acabou por desentendimento entres os músicos, o que não atrapalhou a amizade deles. Até porque o resultado foi a fundação de duas importantes bandas de rock do país, a Legião Urbana, com Renato Russo, e a Capital Inicial, com os irmãos Lemos a frente.  A Legião passou pouco tempo em Brasília, e influenciada pelos Paralamas do Sucesso, foram para o Rio de Janeiro tentar a carreira de rockstars. Dona Carminha lembra que Júnior estava bem decidido do que queria. “Não sofri tanto com a ida para o Rio porque ele iria para casa dos meus pais, na Ilha do Governador. Eles estavam bem cuidados”, lembra.

Somos-3A licença poética foi marcante na concepção do trabalho dramatúrgico. A própria Carminha Manfredini revela que muita encenação presente no filme não é real, como no início, em que o jovem Renato cai de bicicleta e outra em que ele empurra o pai. “Nunca existiu isso”, revela. Ela também confessa que não queria que Fontoura incluísse cenas do filho drogado para que não influenciasse os jovens. A orientação sexual do homem que virou mito também não recebe cores fortes na versão cinematográfica. Philipe Seabra revela, ainda, que a música tocada no famoso show na Festa do Milho de Patos de Minas não foi  “Que País É Este”, e sim “Música Urbana 2’” com letra tão pesada quanto, mas pouco conhecida. Os versos “os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana” resultou na prisão da Legião e da Plebe após o show – episódio também não colorido no filme.

103434_007_gEm paralelo às críticas controversas – há quem julgue o filme uma tentativa superficial de romantizar a vida de uma lenda complexa -, a cinebiografia de Renato Russo é tão bem-sucedida que o cineasta Antônio Carlos Fontoura já recebeu da produtora e da distribuidora uma oferta de dar sequência ao filme. “Ainda é cedo”,  afirma o diretor, parafraseando o título de uma das mais famosas composições do artista, “mas vamos avaliar”.  Se depender de Thiago, poderia vir muita sequência pela frente. “O Renato tem uma história bacana e acho que nossa juventude precisa conhecer. Ele é um líder, o cara que ajudou na revolução que se iniciou nos anos 80”, comenta.

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