NA CAPITAL DO SHOW BUSINESS

Fernando e RafaelBrasil está no centro das atenções do mundo. Pelas belezas naturais, pela economia ascendente e pelos eventos que terão sede por aqui. Com isso, o mercado de entretenimento brasileiro já se equipara ao de países desenvolvidos. As estimativas de crescimento do setor são de quase 200% até 2014. E não é apenas o eixo Rio-São Paulo que vai se beneficiar. Brasília, a Capital da República, finalmente está na rota do show business nacional e internacional. Nos últimos anos, o brasiliense – acostumado a pegar voos para apreciar grandes eventos – pôde “atravessar o Eixo” para ver de perto artistas renomados como God Save The Queen, Supertramp, Simply Red, Peter Frampton, Green Day, Creedence, Paramore, Paul MacCartney, Cindy Lauper, Erasure, Rihana, Tears for Fears. Isso sem falar nos tupiniquins Ana Carolina, Marisa Monte, Exaltasamba, Sorriso Maroto, Seu Jorge, Nando Reis, Maria Rita, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Maria Gadú e tantos outros. Parte dessa conquista deve-se muito ao trabalho realizado por dois jovens na faixa dos 30 anos, que encabeçam duas das maiores produtoras de shows e eventos da Capital Federal. À frente da F2 Entretenimento e da Vision Produções, respectivamente, os produtores Fernando Borges, 30, e Rafael Godoy, 34, tem investido agressivamente no mercado, que, até dez anos atrás, praticamente não era rentável por aqui. Eles começaram cedo, ainda meninos, e hoje são exemplo de que empreender na Capital Federal é bom negócio, sim senhores.

Os jovens de Brasília são criados e preparados para estudar, prestar concursos e entrar no serviço público. Vocês seguiram o caminho inverso: começaram a trabalhar cedo, empreenderam, investiram em seus próprios negócios e hoje são jovens empresários de sucesso. De onde surgiu isso? Vocação ou necessidade?
Fernando: Comecei a trabalhar muito jovem, com 13 anos, porque queria ter um computador só meu. Aos 15 anos, comecei a fazer algumas festas pequenas e quando vi que as pessoas gostavam, passei a pensar na estrutura, oferecer diferenciais e cobrar por esses eventos. Surgiu aí minha paixão por festas. Aos 16 anos eu me tornei promoter de uma boate, uma matinê, entre amigos. Com 18 anos eu já era reconhecido como um dos produtores mais fortes da cidade. A partir disso consegui meu capital econômico para fazer maiores investimentos. Aos 22 anos, montei minha primeira empresa. Fiz faculdade de administração e publicidade, aliando teoria à prática que eu já possuía pela experiência dos trabalhos anteriores. Em 2005 abri a F2 Entretenimento e hoje tenho a possibilidade de levar eventos grandes, inclusive internacionais, pelo Brasil afora.

Rafael: Eu fiz faculdade de Relações Internacionais e, como todo mundo aqui, eu quis entrar na diplomacia, sim. Mas a minha grande gana, minha ansiedade de vida, era ter minha autonomia do tempo, ou seja, ter controle sobre o como e quando eu ia trabalhar. Eu não queria ter rotina, burocracia, como é tão comum. Aqui falta aquela gana do mercado privado, do empreendedorismo. E eu quis mudar isso, fazer diferença na minha própria vida. E iniciou como um hobby, como uma operação que deu certo e foi fluindo pelo encantamento e pelo negócio rentável. Da minha profissão, surgiu o interesse pelos shows internacionais.

A proposta de empreender no mercado de entretenimento partiu de uma necessidade pessoal de cada um, por ser jovem, sem grandes opções de consumo nesta área em Brasília?
Rafael: Eu buscava alternativas fora porque aqui existia uma lacuna. Eu sentia uma grande carência de opção de entretenimento para o público adulto, mais família, numa terra onde as micaretas reinavam e onde o rock tinha ficado no passado.

Fernando: Brasília nunca fez parte do calendário brasileiro de ponto de grandes shows. Como consumidor, sempre fui pra fora. E como empresário, também tive que buscar fora daqui. Estamos na Capital da República, mas existe grande dificuldade de conseguir incentivo. No início da carreira eram pouquíssimos os eventos que não tínhamos que tirar dinheiro do próprio bolso. O governo não enxerga o potencial da cidade e não promove Brasília como integrante dessa rota. Graças a Deus, atualmente já abrimos as portas, mas trabalhamos muito pra chegar nesse estágio, que ainda não é o ideal.

Economicamente, é possível encontrar esse retorno do consumidor brasiliense?
Fernando: O brasiliense sabe usufruir todos os estilos musicais. Basicamente trabalhamos com shows e festas e encontramos excelente público, pois são pessoas dispostas a pagar por serviços de qualidade. Além da contribuição do mercado que, financeiramente falando, possibilita excelente captação devido à grande circulação de capital público e privado.

Rafael: Brasília tem a maior renda per capita do País. É um território onde existe alto poder aquisitivo e pouca opção local para consumo. O brasiliense não vê mais alternativa somente em shopping e cinema. Ele tem buscado outros escapes e encontrado na gastronomia e no entretenimento ao vivo. Nós vislumbramos este último público na família, no casal, no grupo de amigos com 30 anos ou mais. Foi onde começamos a pensar na questão da nostalgia, trazendo musicais antigos para um revival. Foi um ensaio, vimos que o mercado era bom e encontramos um nicho. Foi uma operação arriscada, porque não estava na rota de shows internacionais, os grandes produtores, empresas de entretenimento nunca enxergaram Brasília como mercado de sucesso. Era risco absoluto. Afinal, o brasiliense sempre saiu daqui pra curtir um show internacional no eixo Rio-São Paulo e até mesmo no Nordeste. Foi uma questão de feeling. O brasiliense pode gastar até R$ 1 mil numa única noite enquanto em outros estados a média é R$ 500. Hoje o cidadão, de um modo geral, enxerga no gasto com entretenimento mais do que despesa, mas investimento em qualidade de vida.

Mas ainda é um grande desafio promover um show internacional. Os nomes que desembarcam aqui não são os mais tarimbados…
Rafael: Fazer um show internacional em Brasília ainda é muito caro. A rentabilidade não é a mesma dos grandes centros pela questão cultural, logística, de infraestrutura mesmo, o que chamamos de venue. Nas outras capitais, existem casas prontas para receber grandes eventos, que cria uma estrutura de agendas constantes. Por aqui, temos que levantar estruturas gigantescas. Mas estamos trabalhando para que Brasília se firme como o terceiro maior eixo de shows internacionais do Brasil.

Em relação ao turismo, vocês enxergam no nicho do entretenimento uma forma de atrair público de outros lugares do Brasil?
Fernando: Com certeza. Hoje nós temos festas-chaves que atraem grandes públicos, pessoas de todo o país, a exemplo do que acontece no Rio, São Paulo e Salvador. Mas, ainda assim, percebemos que é muito fácil para o público de Brasília pegar um avião e viajar para um evento fora da cidade. Infelizmente, falta um local que receba grandes shows, mas, quando montamos grandes estruturas e recebemos nomes internacionais, vemos que Brasília tem grande potencial para crescer ainda mais e fazer parte dessa rota de eventos.

Podemos afirmar que esses eventos realizados em Brasília movimentam a economia do DF?
Fernando: Sim, sem dúvidas. Nossos eventos movimentam empresas aéreas, agências de turismo, hotéis, restaurantes e bares, direta e indiretamente. Geralmente os eventos acontecem no final de semana e é nesse período que os hotéis ficam mais vazios porque as pessoas vêm muito durante a semana para reuniões. Portanto, os shows ajudam a preencher essa lacuna e a movimentar a economia durante toda a semana.

Rafael: Turismo deveria ser um dos principais instrumentos de movimentação da economia. Toda turnê internacional dificilmente concilia mais de seis capitais de um país. Tivemos experiências de shows que vieram pessoas de Goiânia, Triângulo Mineiro, Palmas, Salvador, Recife e até Manaus. É um instrumento fortíssimo de turismo para Brasília, que circula grana não somente no nosso business, com venda de ingressos, mas todo o complexo gastronômico, hoteleiro e até o cívico – que é nosso diferencial.

É possível afirmar que já está sendo criada uma indústria do entretenimento em Brasília?
Fernando: Certamente. A gente movimenta toda uma cadeia econômica com nossos eventos, gerando empregos diretos e indiretos para a população em cima de um único show, por exemplo. Contratamos uma imensa quantidade de terceirizados. Se a gente for contabilizar, creio que cerca de 500 pessoas trabalham num único dia de evento.

Rafael: Mas se somos indústria, ainda é muito incipiente. Porque para se ter essa proporção, é preciso instrumentos de incentivo. Porque o apoio não vem das estatais ou das privadas da Capital, mas de grandes empresas de São Paulo ou do Rio que não enxergam Brasília apenas como capital administrativa e política, mas com potencial econômico significativo. Uma visão que parte dos empresários brasilienses não tem. A verdadeira indústria de entretenimento precisa da engrenagem que une produtor com o governo e as demais empresas enxergando essa visão global da coisa.

Como vocês avaliam a estrutura de Brasília para receber os grandes eventos esportivos internacionais que vêm por aí?
Fernando: Eu acredito que as cidades-sede estão se programando e há um processo de atualização. A mobilização é nesse sentido e, para Brasília, isso vai ser fantástico. A reforma do Estádio Mané Garrincha cria uma possibilidade incrível de fazermos grandes shows, porque vem pra suprir um espaço que nós não temos. A existência do que se chama de Elefante Branco vai colocar Brasília, sim, na rota dos grandes eventos. O espaço não será apenas uma casa de realização e promoção dos esportes, mas de grandes eventos, festivais, shows nacionais e internacionais. Eu olho pras maquetes do Estádio que estão pela cidade e visualizo um espaço excelente pra um evento de qualidade… Quem está no mercado de entretenimento vê no Estádio aquilo que sempre almejou. Além disso, é ótimo saber que a cidade será projetada para o resto do mundo, que conhece, prioritariamente, Rio e São Paulo. Mostrar o nome de Brasília vai contribuir muito para que grandes atrações se interessem pela cidade, além de trazer mais turistas estrangeiros.

Rafael: Brasília é a bola da vez. Temum mercado de consumo em desenvolvimento pra todos os gostos, sejam estilos musicais diversificados, seja nacional ou internacional, para público masculino, feminino, GLS… Temos um amplo horizonte nos próximos seis anos: Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas. O Brasil está permitindo que o DF entre na rota dos grandes campeonatos esportivos que atraem shows nacionais e internacionais. O Estádio vai ser estratégico para a operacionalização de grandiosos eventos. Vamos poder atender até 80 mil pessoas trazendo grandes nomes que não fazem apresentações em locais que não sejam estádios. Como Madonna, por exemplo. Não adianta dizer que vamos levantar um espaço: o gringo não percebe isso como algo profissional. Mas tendo o Estádio Nacional, você consegue trazer operações que somente vão para o Morumbi, para o Maracanã e até para o Mineirão. E as bandas internacionais estão vindo cada vez mais para o Brasil. Nosso visão de business tem esse panorama até 2016, no mínimo, de boas perspectivas.

O que vocês ainda têm de sonho a realizar nesta área de entretenimento?
Rafael: Poxa, um show do U2 em Brasília seria fantástico. Assim como nomes atuais como Lady Gaga, Coldplay, ou antigos como Madonna, Rolling Stones, que nunca saem de moda.

Fernando: Me considero muito feliz com tudo que já fiz até hoje. Já realizei eventos para 52 mil pessoas. Eu compartilho o sonho da realização do U2 e o Rock in Rio. Em ambos tive o prazer de circular pelos bastidores, mas eu ainda quero realizar esses projetos em Brasília como produtor.

Há quem diga por aí que os caras que trabalham com show em Brasília são playboys cujos pais deram o capital inicial pro filho se divertir…
Fernando: Dizem mesmo, mas é grande bobagem. Eu trabalho desde os 13 anos e sempre procurei aprimorar a qualidade dos eventos pelo conhecimento de culturas diferentes e afinidade com as bandas e artistas. Pelo menos no meu caso não rolou isso não. Com você rolou, Rafa?

Rafael: Comigo menos ainda. Trabalho demais para que alguém diga isso…

Você se considera um workaholic?
Rafael: Se isso for acordar às seis da manhã, dormir umas quatro horas por noite e já ter uma sequência de reuniões marcadas na agenda, sim, sou. Mas não sou aquele workaholic nerd, bitolado. Entendo que em toda área de atuação você tem que sentir prazer. Eu canso, crio estafa, sinto necessidade de viajar, curtir com minha família e amigos, mas o tempo que gasto com meus negócios são sempre um prazer, em especial pela amizade que tenho com meu sócio (o empresário Sérgio Coelho).

Fernando: Eu me considero um workaholic. Às vezes eu mal como, mal durmo. Tenho hora pra acordar, mas não pra dormir. Já perdi noção do tempo e do espaço. Viajo tanto de uma cidade pra outra que, numa dessas, eu acordei assustado dentro de um avião sem saber para onde estava indo. Eu pensei: “Caramba! Qual é meu destino?”. Aí decidi diminuir um pouco ritmo e tirei minhas manhãs pra cuidar mais de mim: tomar um bom café da manhã, correr todos os dias, ir pra academia. Pra poder ter energia de entrar numa reunião e em outra e em outra… Mas o que importa é saber que, aos 30 anos, eu já me sustento financeiramente com um trabalho que me dá prazer.

 

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