MUITO ALÉM DAS MEDALHAS

César e Hugo

Hugo Parisi e César Castro representam Brasília e o Brasil nas competições de saltos ornamentais em Jogos Olímpicos

Em Londres, nos intervalos de uma disputa ou outra, mesmo concentrados 24 horas por dia na missão de conquistar medalha, havia hora em que os atletas do mundo inteiro paravam para relaxar no meio de tanta pressão psicológica e física imposta por uma Olimpíada. Uma das válvulas de escape para o alívio do stress era aproveitar a sala de jogos para umas partidas amistosas de pingue pongue e sinuca. Hugo Parisi, entretanto, sempre leva qualquer disputa a sério. Quando perdia, ficava visivelmente incomodado. “Quero ser o melhor sempre, por isso me dou 100%. Independente de ser brincadeira, a derrota me incomoda”, revela, sem pudor. Esse é um sentimento comum a maior parte dos competidores. César Castro também não gosta de perder. “Nem par ou ímpar”, ele afirma. O sentimento de derrota é algo que, eles confessam, precisam aprender a administrar. Por outro lado, ambos afirmam que buscam lição nesses reveses. “Quando perco, procuro entender e treinar mais ainda”, explica Hugo. “O esporte nos ensina a compreender o lado positivo dos maus resultados”, avalia César.

César e Hugo por Cristiano CostaCésar Castro e Hugo Parisi sabem do que estão falando. Ambos são atletas de saltos ornamentais e têm larga experiência de grandes competições internacionais, incluindo pelo menos três Olimpíadas cada no currículo – não coincidentemente, exibem como tatuagem nas costas o famoso símbolo dos jogos olímpicos, composto por cinco anéis entrelaçados. Na última competição, Castro foi o único brasileiro a chegar às semifinais na modalidade de saltos ornamentais, terminando em 17º lugar no trampolim de 3m. Já Parisi ficou na 30ª posição na plataforma de 10m. Nenhum dos dois trouxe medalha, mas a avaliação de ambos é positiva para o resultado. Afinal, a modalidade que defendem está entre as 14 modalidades em que o Brasil teve o melhor desempenho em comparação às demais olimpíadas, ocupando a 9ª posição na classificação geral. “Eu me orgulho da minha colocação e não somente me preocupo com a medalha”, revela Hugo. O companheiro, César, explica que os atletas superam algumas metas ao longo do processo que o torcedor leigo não consegue enxergar. “Trabalhamos o aumento de grau de dificuldade da série, aumento da pontuação na fase preliminar para se classificar e cumprimento do planejamento nas partes física, técnica, psicológica e nutricional, entre outras”, enumera. “O Brasil só nos acompanha de quatro em quatro anos e não sabe o que conquistamos nesse intervalo”, resume Parisi. “Esse contexto é antigo e cultural. Sabemos que a mentalidade popular avalia o segundo como um perdedor, imagine o décimo, vigésimo ou o trigésimo?”, completa Castro.

Nossa reportagem conversou com os dois rapazes brasilienses na beira da piscina de saltos na instituição que patrocina ambos há alguns anos, o Instituto Presbiteriano Mackenzie, no Lago Sul. Logo que chegamos, bem cedinho, a recomendação de ambos foi quase uníssona: “Vocês não querem que a gente salte, né?”. Respondemos que não, pois sabíamos que nenhum dos dois tinha autorização para saltar, por estarem em gozo de suas férias. Com 30 e 28 anos completados recentemente, os brasilienses César Castro e Hugo Parisi, respectivamente, já viraram a página inglesa e trabalham para chegar à quarta olimpíada seguida, em 2016, agora em terras nacionais, no Rio de Janeiro. E, para isso, logo retornam à rotina puxada de treinos diários. Castro dedica em média 6 horas diárias, de segunda a sexta, divididas em treinos na piscina, academia, ginásio de saltos ornamentais e fisioterapia. Parisi tem um treino mais rigoroso, das 8h às 12h e das 14 às 17h, todos os dias, com exceção de quarta e sábado, em que só treina pela manhã. A alimentação também é observada. A de César muda de acordo com o treinamento, o local do treino, as competições e o descanso. “Tenho uma alimentação balanceada para manter a massa muscular. Eu me preocupo muito com o pós treino”, observa, contando que seu prato costuma ser de arroz, feijão, frango, salada à vontade, com muito tomate, pepino, beterraba e cenoura, acompanhado de suco de laranja. Já Hugo revela comer de tudo. “Não sigo dieta porque tenho uma genética que me favorece. Meu pecado está na carne de porco, mas não como doce, para compensar”, ele avisa.

Durante a conversa, um tema foi inevitável: a falta de incentivos agressivos no esporte brasileiro de um modo geral. Mas como não há, se o País está vivendo praticamente em função dos dois maiores eventos esportivos internacionais do Planeta? Para Hugo e César, apenas o futebol está no maior foco de investimentos e expectativas. A crítica de ambos é severa no sentido de que o esporte no Brasil é falido, não sendo cultural enquanto instrumento de educação. “Sinto que falta vontade política. É preciso mudar a mentalidade do brasileiro. Até acho que existe um esforço para mudar a mentalidade, que tem se caminhado para isso. Mas está muito longe de se chegar a um ideal. Falta organização”, desabafa Parisi. Segundo ele, o esporte é uma área profissional, onde dá pra seguir carreira. “Em países desenvolvidos, o investimento educacional é a partir do esporte, principalmente em modalidades periféricas como a nossa. Por aqui, não é o que vemos, nem mesmo no futebol”, ele observa. Para César, que hoje reside e treina no Rio de Janeiro – ao contrário de Hugo, que, após uma passagem pelo Rio, voltou para Brasília – o reconhecimento político deixa a desejar. “Falta uma politica de investimento no esporte em todas as etapas, desde a base ao alto rendimento. Brasília é excelente para revelar talentos, mas poderia ser muito melhor, caso tivesse boas políticas”, ele reclama. “Brasília é boa para apresentar novo atleta, mas é ruim para segurar”, complementa Hugo.

Os nossos atletas olímpicos tem consciência de que, por meio do esporte, jamais conseguirão alcançar um status de riqueza, tão comum ao ostentado pelos jogadores de futebol. “Nosso faturamento vem com as medalhas, que se reverte em patrocínio e publicidade. Mas nada que traga a fortuna de um Neymar”, avalia Hugo. “A gente faz esporte no Brasil por amor e chegamos onde estamos porque somos perseverantes”, observa César. “Me considero um vitorioso, porque só fiz o que quis da vida”, finaliza Parisi.

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César Castro ostenta boas marcas no currículo. Nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, foi finalista, quebrando um jejum de 52 anos na modalidade desde o último brasileiro a alcançar o feito. Em 2007, subiu ao pódio no 2º lugar nos Jogos Pan Americanos do Rio de Janeiro. Nascido e criado na Asa Norte, começou a fazer saltos no Departamento de Educação Física, Esportes e Recreação (Defer), a convite do professor Giovani Casilo, que percebeu seu gosto de brincar nos trampolins. Além disso, andou muito de bicicleta pelo Parque da Cidade, estudou em Escola Classe e já frequentou muito clubes do DF. César é filho de professora aposentada da Secretaria de Educação e de um militar reformado, que alternam residência entre Brasília e São João Del Rei (MG). Casado com Sabrina, o atleta não se considera vaidoso. Ele gosta de roupas com cores discretas, não usa relógio da moda, nem óculos de marca. “Sou legitimo filho de mineiro. Minha vaidade é básica”, define-se. Vamos dividir Narciso em categorias para que eu me enquadre nas mais discretas. E nessa categoria eu vou ser o campeão!”, ele se diverte.

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Hugo Parisi nasceu em Taguatinga e iniciou no esporte de seis para sete anos de idade. Começou antes com natação, mas foi levado a saltar pelos pais – um engenheiro elétrico e uma professora. Ao longo de sua carreira esportiva possui resultados expressivos, sendo considerado um dos melhores saltadores do Brasil na atualidade. Segundo ele, que exibe um corpo sarado, mas mignon, quanto menor a estrutura corporal, melhor. “A cabeça faz mais diferença que o corpo, pois é um esporte de concentração e equilíbrio. Mas há diferença de tipo físico por modalidade”. Morador da Asa Sul, Hugo procura estar com família e amigos nas poucas horas vagas. Embora seu lado narcisista se manifeste no sentido de querer ser o melhor em tudo o que faz, ele também não se encaixa na categoria medalha de ouro em vaidade. “Ser vaidoso para mim é se preocupar com a aparência. Nesse aspecto não me preocupo muito. É claro que me cuido, mas nunca foi uma preocupação”, ele argumenta. A namorada, que é formada em Moda, entretanto, por vezes assume o posto de técnica do seu estilo. “Visto o que me faz me sentir bem”, resume.

 

 

 

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