JULIANO CAZARRÉ: O GALÃ DA NOVELA SEM NOVE HORAS

JulianoCazarrepor DiegoBresaniO ritmo louco de um cara que está no ar na novela das nove, decorando falas, gravando várias cenas por dia e vivendo na ponte aérea Rio-Brasília para poder conciliar trabalho e família, exige objetividade e otimização do tempo. Mesmo assim, ele encontrou um tempo em sua agenda para um bate-papo rápido e direto com a REVISTA NARCISO. Logo de cara, Juliano Cazarré deixa claro que não é de meias palavras ou subterfúgios. “Sou direto nas respostas, honesto e transparente com meus sentimentos e ideias”, define o ator, explicando que este traço da personalidade vem de suas raízes gaúchas. Embora tenha passado a maior parte dos seus 32 anos em Brasília, os pais do galã são do Rio Grande do Sul e, mesmo já vivendo na Capital Federal, decidiram ir até Pelotas para que o seu nascimento acontecesse no seio familiar. “Mas íamos sempre ao Sul, no mínimo duas vezes por ano. Crescer numa família gaúcha me influenciou tanto quanto se tivesse morado por lá. Certas características minhas, como não tolerar desaforo ou injustiça, são bem típicas”, explica.

20100327-A0032245 (2)Eu disse “galã” lá em cima? Retiro o que leram. Juliano não gosta de ser chamado assim. “Cara, na real, eu acho que não sou galã coisa nenhuma. Na primeira novela eu era um capanga e agora eu sou o doidinho… O galã usa terno Armani, jaqueta de couro. E eu só fico de bermuda e sandália!”, ele se esquiva. A primeira novela a que ele se refere é “Insensato Coração”, exibida no ano passado, também em horário nobre na Globo, e que revelou o ator para as massas. No papel do vilão Ismael, aparecia boa parte do tempo seminu e, entre uma maldade e outra a mando da patroa Dona Norma (Glória Pires), levava à loucura a personagem azeda de Deborah Evelyn e uma considerável fatia da população feminina – e masculina – que curte um bom cafajeste. De volta ao horário nobre praticamente emendando um trabalho em outro, porém, o personagem atual, o gari Adauto, é mais comportado e com índole melhor, mas vez ou outra exibe novamente o físico bem servido e novamente protagoniza cenas de paixão com uma mulher madura, a coroa Muricy (Eliane Giardini). Mas ainda assim, Juliano rejeita a pecha de galã. Chamado por aí de novo José Mayer, ele diz que a comparação é “uma bobagem sem tamanho”. E afirma: “Eu odeio rótulos”.

O sucesso de Juliano Cazarré é inegável. Seus dois personagens de maior visibilidade na televisão não fazem parte das tramas principais, mas são membros dos núcleos centrais das novelas que participou. Em “Avenida Brasil”, por exemplo, é um dos responsáveis por trazer um pouco de leveza ao clima denso que envolve a vingança que sustenta a espinha dorsal da história criada por João Emanuel Carneiro e está mantendo a maior parte dos brasileiros sentada na frente da tevê. O assédio nas ruas, inevitável, traz certo incômodo. Juliano – que está fora das redes sociais da internet – diz que tenta atender aos pedidos de fotos, mas confessa que acha chato ficar posando e mais ainda dar autógrafo. “Hoje em dia todo celular tem câmera e o número de pedidos aumentou muito. Mas eu atendo a todos, porque penso no lado dos fãs, embora eles não pensem muito no meu lado, né?”, ele desabafou.

Fugindo do rótulo ou não, Juliano chegou à tevê trazendo a imagem da virilidade. A culpa é do porte do ator, que, com 83 quilos bem distribuídos em 1,80 de altura, tem braço tatuado, peito peludo e um rosto que destoa do visual comum aos egressos da “Malhação”. Mas o rapaz que odeia rótulos não evita o clichê. “Na real, eu me preocupo mais com a minha saúde do com a minha aparência. Acredito que se eu estiver saudável, vou estar com boa cara”, despista. Para manter a forma, Juliano não é do tipo que bate ponto em academia, aparecendo vez ou outra em uma badalada unidade da Barra da Tijuca – seu endereço no Rio – “só pra manter peito e perna”. Sua principal atividade física é a corrida, que, segundo ele, faz bem à mente e ao espírito. Aliás, a busca por esse equilíbrio é um traço forte do seu perfil. Dentro da cara bonita e do corpo viril, existe um sujeito que concilia a boa aparência com a personalidade mais voltada para o intelecto. O galã (ops!) que aparece na telinha exibindo o dorso nu, na vida real, não se considera escravo da vaidade, mas tem estilo, usa óculos de grau, gosta de andar vestido da cabeça aos pés e prefere assistir bons filmes e peças de teatro, ler livros de qualidade, escutar música e conversar com gente interessante a badalações sociais e esportivas. “Eu sou um cara normal. Não sou o mais gato, nem o mais feio. Não sou o mais inteligente, nem o mais burro”, desconversa Cazarré.

Bagagem cultural – Ele é um cara culto, que estudou artes cênicas na Universidade de Brasília (UnB) e aprendeu a prática da técnica ainda no circuito brasiliense, atuando no palco do teatro e nos sets do cinema mais alternativo. Juliano Cazarré iniciou sua trajetória em peças do aclamado Hugo Rodas – como “Adubo”, que, em sua turnê nacional arrancou elogios de Fernanda Montenegro – e não esconde o brilho nos olhos ao dizer que sua referência é o teatro artesanal. Aliás, ressalta que seu sonho é ter uma companhia para trabalhar a arte de forma mais acadêmica. “Quero ainda ter dedicação para pesquisar a linguagem, o corpo, a voz, o rito teatral, e poder, assim, construir peças com tempo e esmero”, ele confidencia, ressaltando que encontra referências em grupos como o LUME, de Campinas, ou Odin Teatret.

Se no teatro Juliano fez sua escola, a graduação aconteceu no cinema. A estreia ocorreu ainda na Capital Federal, no início da década passada, quando atuou nos curtas “Suicídio Cidadão”, do diretor Iberê Carvalho, e “Momento Trágico”, de Cibele Amaral. Em 2005, estrelou o controverso “A Concepção”, filme de José Eduardo Belmonte que promoveu seu primeiro contato com o ator Mateus Natchergaele, a estrela global da produção que mais tarde lhe abriria uma grande porta: em sua primeira incursão pela claquete, o ator/diretor o convidou para fazer parte do elenco principal da sua produção “A festa da menina morta”, que seria lançada em 2008. Antes, entretanto, Juliano daria as caras na telona como um membro da aclamada “Tropa de Elite” de José Padilha e foi indicado ao título de melhor ator no Festival de Gramado por sua atuação como um dos namorados de Leandra Leal em “Nome Próprio”, dirigido por Murilo Salles. “Essa indicação foi coisa de outro mundo. Ainda não era a hora de levar um Kikito pra casa, mas foi um impulso incrível na minha carreira”, lembra o ator.

O cinema representa um divisor de águas na trajetória de Juliano. Na sequência do filme de Natchergaele e da indicação ao Kikito, esteve em produções como “Vips”, “Bruna Surfistinha” e “Assalto ao Banco Central”, em que dialogou em cena com Wagner Moura, Deborah Secco e Lima Duarte. Não interpretou, ainda, nenhum protagonista, mas construiu seu nome na sétima arte por meio de pequenas participações que influenciaram o rumo das produções. “Um papel foi me dando a chance de fazer teste para outro, fui passando nos testes e trabalhando”, ele resume, lembrando que a televisão se alimenta de gente revelada no cinema e no teatro. “Assim como o cinema e o teatro se alimentam dos grandes nomes da televisão como uma forma de atrair mais atenção para as produções”, completa ele.

A paixão pela sétima arte é outro traço marcante da personalidade do ator, que encontra referências nos chamados filmes de diretor, como os de Paul Thomas Anderson, dos irmãos Cohen, de Lars Von Trier e de Terrence Malick. Juliano também se empolga bastante quando o assunto é o cinema argentino. “Nós deveríamos aproveitar que os argentinos estão aqui do nosso lado para aprender com eles a fazer filmes simples, bons, baratos, mas que contam óti-mas estórias”, ele aconselha, apontando no roteiro a maior falha do cinema brasileiro. Segundo Cazarré, o mercado está cada vez melhor, com vários filmes ultrapassando um milhão de espectadores graças a grandes atores, diretores e fotógrafos, mas tem crítica forte aos roteiros. “São, muitas vezes, fracos, com diálogos pobres. A concepção de que o cinema é uma ‘câmera na mão e uma ideia na cabeça’ nos atrasou muito. A indústria é cara e complexa, o público é exigente. Ainda mais no Brasil, onde os preços dos ingressos são absurdos”, lembra.

Juliano coleciona 11 filmes na carreira e aguarda a estreia de mais três nos cinemas, como o longa “Febre do Rato”, de Cláudio Assis. O garoto que saiu das quadras 312 e 716 da Asa Norte (leia ao lado) ganhará projeção internacional e poderá ser visto, em breve, ao lado da colega Maria Flor, na produção “360”, filme do brasileiro Fernando Meirelles rodado em Londres, na Inglaterra, tendo como protagonistas Rachel Weisz, Jude Law e Anthony Hopkins. “Foi ótimo trabalhar fora, conhecer Londres e perceber que cinema é cinema em qualquer lugar, embora talvez eles tenham um cuidado maior com os atores por lá”. Perguntado se pretende seguir os passos de colegas brasileiros com projeção internacional como Sônia Braga, Rodrigo Santoro e Alice Braga, Juliano foi direto, do mesmo jeitinho que fez questão de frisar no início desta entrevista. “Não pretendo seguir os passos de ninguém. Eu quero construir a minha própria e única caminhada. Se você me pergunta se eu quero trabalhar fora do País, aí sim eu respondo que adoraria ter essa oportunidade novamente”, sentenciou o ator.

O ator revela ter dificuldade em gostar da literatura que se escreve hoje, preferindo ler clássicos como Mário Quintana e João Cabral de Melo Neto. Mesmo assim, ou talvez por isso, está se inserindo no mercado literário. Recentemente, escreveu um livro de contos tendo como tema a Janela. “Pode ser a janela de uma casa, de um dente quebrado, de uma tela de cinema. Resolvi brincar com essas situações”, conta ele, que já teve um de seus contos, chamado “Ana Beatriz”, transformado em curta metragem em Brasília. Ele, que escreve roteiros, também quer mergulhar na direção de cinema. “Atualmente estou fazendo um curta de animação e tem outro projeto concorrendo em editais, desta vez para dirigir atores de carne e osso”, ele finaliza.

JulianoCazarré

 

 

 

 

 

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